Neste artigo
- Legenda definida pela supervisão
- Tipos de ajuda versus ordem de uso
- Ajuda e independência no mesmo dado
- Versão da legenda
- Esvanecimento documentado
- Mudanças de nível e comparação
- O que a equipe precisa ter escrito
- Sobre a Edição ABA do Sinthoma
- Perguntas frequentes
- Existe uma ordem universal de dicas?
- Como registrar mudança de dica?
- Menos ajuda significa necessariamente domínio?
A legenda de dicas é a lista de siglas que a equipe usa para dizer, em cada tentativa, quanta ajuda a criança recebeu. Quem define a legenda é a supervisão, e ela vale para toda a equipe do caso, na mesma versão, com a mesma redação. Sem esse acordo, "AG" significa uma coisa para uma aplicadora e outra para a seguinte, e o gráfico passa a misturar o que não é comparável.
Este guia cuida do registro. Ele não diz que ordem de ajuda usar, quando reduzi-la nem quanto esperar de uma criança autista ou de qualquer outra pessoa. Essas decisões pertencem ao analista ou à analista responsável pelo caso, com base na avaliação, e podem mudar ao longo do acompanhamento. O que se descreve aqui é como deixar a decisão legível nos dados. Os exemplos são sintéticos: a "criança A." e os números não existem.
Legenda definida pela supervisão
Uma legenda boa cabe numa linha por nível e responde, sem interpretação, ao que significa cada sigla. A clínica pode adotar uma legenda própria, ajustada ao programa e à criança, e nenhuma delas é a única correta. Também não faz sentido copiar a de outra clínica sem ler o que cada sigla quer dizer na prática da equipe.
A tabela abaixo é um exemplo, e só isso. A legenda que vale é a da sua clínica.
| Sigla | Significado no exemplo | Conta como independente? |
|---|---|---|
| + | resposta correta sem ajuda | sim |
| AF | ajuda física | não |
| AG | ajuda gestual | não |
| AV | ajuda verbal | não |
| − | erro | não |
Nesse exemplo, o sinal de mais é o único que entra no numerador da independência. Mais abaixo aparece o que acontece quando a legenda ganha novos níveis. O princípio vale para qualquer desenho: a legenda diz de antemão qual sigla conta como independente, e essa regra não muda de uma sessão para outra.
Cooper, Heron e Heward, em Applied Behavior Analysis (3ª ed., 2020), são a referência de método para os conceitos gerais de ajuda, controle de estímulo e retirada gradual. O texto de um manual, porém, não substitui o que a equipe acordou por escrito para aquele caso.
Tipos de ajuda versus ordem de uso
Tipo de ajuda e ordem de uso são duas coisas separadas. O tipo diz de que forma a ajuda é dada. A ordem diz em que sequência os tipos entram e saem durante o ensino. A legenda descreve os tipos; o procedimento do programa descreve a ordem.
Entre os tipos citados com frequência na literatura, descritos de forma neutra, estão:
- Física total: a pessoa que conduz guia a resposta com as próprias mãos do início ao fim.
- Física parcial: há contato, mas a criança faz parte do movimento.
- Modelo ou demonstração: a resposta é mostrada, e a criança a repete.
- Gestual: um gesto indica a resposta, sem contato, como apontar.
- Verbal: uma palavra, uma frase ou parte da resposta é dita.
- Posicional: o material é posicionado de modo que a resposta correta fique mais próxima ou mais evidente.
Cada clínica escolhe quais desses tipos usa, como os nomeia e como os separa. Alguns serviços unem física total e parcial numa única sigla; outros separam. O registro precisa seguir o que o programa diz, e não a lista acima.
Quanto à ordem, os procedimentos descritos na literatura incluem sequências do mais para o menos e do menos para o mais. No primeiro formato, o ensino começa com a ajuda mais forte e vai diminuindo. No segundo, a criança tem a oportunidade de responder com menos ajuda e a ajuda sobe só quando necessário. Este guia não recomenda um nem outro. A escolha depende da criança, do comportamento-alvo e da avaliação, e é da supervisão. O que interessa ao registro é que o procedimento adotado esteja escrito no programa, para que a leitura da folha faça sentido.
Ajuda e independência no mesmo dado
Toda resposta correta com ajuda é registrada com o nível de ajuda, e não conta como independente. Essa é a regra que preserva o significado do percentual. Quando "acertou" vira uma coluna só, a folha deixa de mostrar se a criança respondeu sozinha ou com a mão da aplicadora sobre a sua.
Veja o efeito em quatro sessões sintéticas da criança A., cada uma com 10 tentativas do mesmo alvo.
| Sessão | + | AF | AG | AV | − | Respostas corretas | Independência |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | 5 | 2 | 0 | 1 | 9 de 10 | 20% |
| 2 | 3 | 3 | 3 | 0 | 1 | 9 de 10 | 30% |
| 3 | 4 | 1 | 3 | 2 | 0 | 10 de 10 | 40% |
| 4 | 6 | 0 | 2 | 1 | 1 | 9 de 10 | 60% |
Em cada linha, as colunas fecham em 10. Se a folha guardasse só "acertou", as quatro sessões seriam 90%, 90%, 100% e 90%, e pareceriam um desempenho estável. Com a ajuda registrada, a independência vai de 20% a 60% e a ajuda física some na sessão 4. O dado fala do mesmo ensino, só que com a informação que importa.
Um cuidado: a série não prova domínio nem prevê o que vem depois. Ela mostra o que aconteceu naquelas quatro sessões, no programa fictício. A análise do que isso quer dizer para a criança é da supervisão.
Versão da legenda
A legenda tem versão, data e responsável. Quando uma sigla muda de significado, ou quando um nível é acrescentado ou removido, a mudança é registrada como nova versão, e as folhas anteriores continuam com a legenda da época em que foram preenchidas.
O registro mínimo da legenda tem quatro campos: número da versão, data de vigência, quem aprovou e o que mudou em relação à anterior. Por exemplo: "Versão 2, de 14/09/2026, aprovada pela supervisão; acrescenta PO (posicional) entre AG e AV". Com esse bloco no cabeçalho da folha, quem lê o gráfico seis meses depois sabe qual regra valia em cada sessão.
Duas práticas evitam confusão. A primeira: nunca reaproveitar uma sigla com outro sentido. Se "AV" deixou de significar uma dica verbal completa, a sigla antiga fica aposentada, e a nova ganha outro código. A segunda: avisar a equipe inteira antes de a nova versão entrar em vigor, para que nenhuma aplicadora preencha uma folha pela legenda velha.
Se o dado é de pessoa menor de idade, a folha usa iniciais ou o código do caso, nunca o nome completo. O art. 14 da Lei 13.709/2018 (LGPD) exige que o uso de dados de crianças e adolescentes atenda ao melhor interesse deles. O mesmo cuidado vale para a legenda, que não deve carregar nome nem detalhe que identifique a criança.
Esvanecimento documentado
Esvanecimento é a retirada gradual da ajuda, e o registro mostra se ela está de fato diminuindo. Ele só aparece nos dados quando cada tentativa carrega o nível de ajuda usado. A contagem de acertos, sozinha, não distingue uma criança que responde sem ajuda de uma que responde sempre com a mesma ajuda.
O que olhar no registro: a proporção de tentativas em cada nível ao longo das sessões. Na tabela das quatro sessões, a ajuda física caiu de 5 tentativas para 0, e as tentativas independentes subiram de 2 para 6. Esse é o padrão que uma retirada gradual deixaria no papel. Quando a proporção de um mesmo nível permanece igual por muitas sessões, a folha sinaliza algo que a supervisão deve examinar.
O que pode estar por trás, a supervisão avalia: o alvo pode estar difícil, a ajuda pode estar sendo reduzida cedo ou tarde demais, a criança pode estar cansada ou desconfortável. O registro não responde a essas perguntas. Ele só as torna visíveis. Por isso vale anotar, na mesma folha, recusas, pausas pedidas e sinais de desconforto, porque eles ajudam a ler o dado. O assentimento da criança faz parte da informação que acompanha o número.
Mudanças de nível e comparação
Toda mudança no nível de ajuda do programa entra no registro com data, nível anterior, nível novo, quem decidiu e o motivo escrito. É a supervisão que decide quando mudar, com base no critério que a clínica definiu para o programa. O guia sobre critério de domínio e linha de base discute essa fronteira entre registro e decisão.
No gráfico, a mudança costuma aparecer como uma linha vertical marcando a transição de fase, de modo que as sessões antes e depois sejam lidas como condições diferentes. Comparar o percentual de independência antes e depois de uma mudança de nível, sem a marcação, é comparar números que não medem a mesma coisa.
A comparação entre sessões de pessoas diferentes também pede atenção. Se duas aplicadoras usam a mesma sigla de forma distinta, a diferença no gráfico pode ser de leitura da legenda, e não de desempenho da criança. A conferência por supervisão, com observação ocasional da sessão, ajuda a manter a mesma leitura. É decisão da clínica como e com que frequência fazer isso.
Quanto às normas, a Resolução CFP 001/2009, alterada pela 005/2010, é a referência do registro documental para psicólogas e psicólogos, e as demais profissões da equipe têm as suas. O CFP publicou também a Nota Técnica CFP 23/2025, sobre o uso de ABA no cuidado a pessoas autistas. Vale lê-la na íntegra com a supervisão.
O que a equipe precisa ter escrito
A clínica precisa ter cinco itens por escrito para o registro fazer sentido:
- a legenda, com versão e data;
- o procedimento de ajuda de cada programa, incluindo a ordem adotada;
- a regra que diz quais siglas contam como independentes;
- quem pode alterar a legenda e como a equipe é avisada;
- o que fazer com recusa, pausa e sinais de desconforto da criança.
A legenda da clínica deve acompanhar cada folha, inclusive a folha de registro. Para organizar a coleta em torno desses itens, veja o guia de coleta de dados, que explica denominador e dado ausente, e o de tentativa discreta, que mostra a folha tentativa a tentativa. O hub de guias de ABA reúne o restante da série, e o planejamento por escrito do caso é tema do guia sobre PEI, PTI e PIC.
Sobre a Edição ABA do Sinthoma
A Edição ABA do Sinthoma, para clínicas com supervisão e equipe de aplicação, está em construção. O que já existe e o que vem a seguir estão na página da Edição ABA.
Perguntas frequentes
Existe uma ordem universal de dicas?
Não. A literatura descreve tipos de ajuda e procedimentos de sequência, como do mais para o menos e do menos para o mais, e a escolha depende da criança, do comportamento-alvo e da avaliação. Quem decide é a supervisão, e o programa deve deixar a ordem adotada por escrito. O registro serve para mostrar o que foi feito, sem impor uma sequência.
Como registrar mudança de dica?
Registre a data, o nível anterior, o nível novo, quem decidiu e o motivo, no próprio programa. No gráfico, marque a transição para que as sessões antes e depois sejam lidas como condições distintas. Se a legenda mudou, crie uma nova versão com data e aprovação da supervisão, e mantenha as folhas antigas com a legenda da época.
Menos ajuda significa necessariamente domínio?
Não. Menos ajuda registrada mostra que a ajuda diminuiu, mas domínio depende do critério que a clínica definiu para o programa, do número de sessões, da generalização e de outros dados. A leitura é da supervisão. Também vale conferir erros, recusas e sinais de desconforto, que podem explicar o que o percentual sozinho não mostra.