Neste artigo
- O que se registra numa oportunidade
- O denominador é a oportunidade observada
- Exemplo sintético, passo a passo
- Como o NET aparece no gráfico
- Erros comuns de registro
- Quem confere e quem decide
- Sobre a Edição ABA do Sinthoma
- Perguntas frequentes
- Como calcular o percentual no ensino naturalístico?
- Preciso registrar a oportunidade em que a criança recusou?
- NET substitui o ensino por tentativa discreta?
No ensino naturalístico (NET, do inglês natural environment teaching), a oportunidade de aprender surge de dentro da rotina: a criança estende a mão para o suco, olha para o brinquedo na prateleira, empurra o balanço. O registro precisa guardar essa oportunidade, porque ela não foi marcada na folha antes de acontecer. Sem isso, o percentual da semana não tem de onde sair.
Este guia trata só do registro. Ele não diz quando usar NET, quando usar tentativa discreta, nem como combinar as duas formas de ensino. Essa escolha é da supervisão, caso a caso, com base na avaliação da criança. Os exemplos são sintéticos: a "criança A." e os números não existem.
O que se registra numa oportunidade
Uma oportunidade de NET fica registrada em cinco campos: contexto, iniciativa, ajuda, resposta e resultado. Cada campo responde a uma pergunta que o gráfico, sozinho, não consegue responder depois. Quando algum deles falta, a linha ainda pode ser lida, mas deixa de ser comparável com as outras.
- Contexto: onde e durante qual atividade a oportunidade apareceu (lanche, brincadeira com blocos, chegada na sala).
- Iniciativa: quem começou. A criança pediu, apontou, olhou? Ou a pessoa que conduz criou a situação?
- Ajuda: o que a pessoa que conduz fez antes da resposta, descrito com a mesma legenda de dicas que a equipe usa nas outras folhas.
- Resposta: o que a criança fez, na definição escrita no programa.
- Resultado: o que veio depois (a criança recebeu o item, a atividade continuou, houve recusa).
A coluna de iniciativa merece atenção. Uma oportunidade que a criança iniciou e uma que a aplicadora montou dizem coisas diferentes sobre o mesmo alvo, e a folha deve deixá-las separadas.
O denominador é a oportunidade observada
No NET, o denominador é o número de oportunidades que a equipe de fato viu e registrou, e não um número planejado de antemão. Se em uma hora de brincadeira apareceram 6 oportunidades do alvo e a criança respondeu de forma independente em 2, o registro é 2 de 6. A hora não entra na conta.
Isso muda o que o percentual pode afirmar. "33% de independência" só tem sentido junto do "de 6". Uma sessão com 6 oportunidades e outra com 15 produzem percentuais que parecem iguais no gráfico e pesam muito diferente. Por isso vale guardar sempre o numerador e o denominador, e não apenas a taxa.
Há um segundo cuidado: oportunidades que passaram sem ser vistas não entram no denominador, e ninguém sabe quantas foram. O dado ausente é parte da informação. Se a aplicadora estava ocupada com outra criança durante 10 minutos, escreva isso na folha, em vez de deixar o intervalo parecer uma sessão sem oportunidades.
Exemplo sintético, passo a passo
A criança A. tem, no programa fictício, o alvo "pedir o item desejado com uma palavra ou sinal". Numa sessão de 30 minutos de brincadeira e lanche, a aplicadora registra assim:
| # | Contexto | Iniciativa | Ajuda | Resposta | Resultado |
|---|---|---|---|---|---|
| 1 | Lanche, suco fora do alcance | Criança | nenhuma | pediu com sinal | recebeu o suco |
| 2 | Blocos, peça faltando | Aplicadora | gestual | pediu com palavra | recebeu a peça |
| 3 | Blocos, peça faltando | Aplicadora | verbal | sem resposta | peça entregue após pausa |
| 4 | Chegada, brinquedo na prateleira | Criança | nenhuma | pediu com sinal | recebeu o brinquedo |
| 5 | Lanche, guardanapo | Aplicadora | nenhuma | recusou, afastou-se | atividade seguiu sem insistir |
O resumo da sessão tem 5 oportunidades. Respostas independentes: 2 (linhas 1 e 4, ambas iniciadas pela criança). Respostas com ajuda: 1 (linha 2). Sem resposta: 1. Recusa: 1, registrada à parte. Na linha 5, a recusa fica no dado como o que ela é, uma informação sobre a criança naquele momento, e não como erro. Registrar a recusa e o pedido de pausa é parte do cuidado com o assentimento.
Repare no que a folha não fez: não inventou uma sexta oportunidade para fechar um número redondo, e não somou a linha 5 ao total de erros.
Como o NET aparece no gráfico
O gráfico de NET costuma mostrar, por sessão, o número de oportunidades e a proporção de respostas independentes, de preferência juntos. Duas séries lado a lado evitam que uma sessão curta e uma longa pareçam equivalentes. Se a clínica usa a folha de gráfico, vale registrar o denominador em cada ponto.
Outra leitura útil é a de iniciativa: quantas das respostas independentes partiram da criança. Se essa proporção muda ao longo das semanas, o registro mostra, e a supervisão interpreta. O texto não diz que mudança é boa ou ruim.
Quando a equipe muda a definição de oportunidade (por exemplo, passa a contar também o olhar dirigido ao item), a série antiga deixa de ser comparável. Registre a mudança com data e marque a transição no gráfico, como se faz em qualquer mudança de medida.
Erros comuns de registro
O primeiro é registrar só o que deu certo. Sem as oportunidades sem resposta e as recusas, o denominador encolhe e o percentual sobe sem que nada tenha mudado na criança.
O segundo é tratar toda oportunidade como se tivesse sido planejada, o que apaga a diferença entre a iniciativa da criança e a situação montada pela aplicadora.
O terceiro é anotar de memória no fim do dia. No NET, as oportunidades passam rápido e se misturam. Anote durante a atividade, com poucas palavras, ou logo após cada bloco, e escreva na folha quando o registro foi feito depois.
Quem confere e quem decide
Quem aplica registra. Quem decide o que o dado significa é a supervisão: se o alvo avança, se a definição de oportunidade muda, se o NET continua sendo a forma de ensino para aquele programa. O guia sobre critério de domínio e linha de base trata dessa fronteira entre registro e decisão.
Para a equipe, o mínimo por escrito é: a definição de oportunidade do alvo, a legenda de dicas em vigor, a definição da resposta e o que fazer com recusa e pausa. A coleta de dados explica denominador e dado ausente com mais detalhe, e o guia de tentativa discreta mostra a folha tentativa a tentativa, para quem quiser comparar os dois registros. A hierarquia de dicas cuida da legenda, e o hub de guias de ABA reúne o restante da série.
Sobre normas: a Resolução CFP 001/2009, alterada pela 005/2010, trata do registro documental de psicólogas e psicólogos, e as outras profissões da equipe têm as suas. Dado de criança é dado de saúde e sensível (LGPD, Lei 13.709/2018, art. 11), e o art. 14 pede que o tratamento atenda ao melhor interesse da criança. Na prática, a folha usa iniciais ou código do caso, não o nome. Para conceitos gerais de método, a referência é Cooper, Heron e Heward, Applied Behavior Analysis (3ª ed., 2020).
Sobre a Edição ABA do Sinthoma
A Edição ABA do Sinthoma, para clínicas com supervisão e equipe de aplicação, está em construção. O que já existe e o que vem a seguir estão na página da Edição ABA.
Perguntas frequentes
Como calcular o percentual no ensino naturalístico?
Divida as respostas independentes pelas oportunidades que a equipe observou e registrou. Se foram 6 oportunidades e 2 respostas independentes, o registro é 2 de 6. Guarde sempre os dois números, porque o percentual sozinho esconde se a sessão teve 6 oportunidades ou 15.
Preciso registrar a oportunidade em que a criança recusou?
Sim. A recusa é informação sobre a criança naquele momento e entra no registro como recusa, separada de erro. Ela também mantém o denominador honesto. O que fazer depois de uma recusa é decisão da supervisão, descrita no programa.
NET substitui o ensino por tentativa discreta?
Este guia não responde a isso. Cada forma de ensino tem registro próprio, e a escolha, ou a combinação das duas, é da supervisão para cada criança, com base na avaliação. O que o registro faz é deixar claro, na folha, qual forma estava em uso em cada sessão.