Neste artigo
- Definição operacional do comportamento
- Tentativa versus evento
- Frequência, taxa, duração, latência e intervalos
- Dado ausente versus zero
- Registro de dicas junto da resposta
- Conferência e correção do registro
- Exemplo calculado, passo a passo
- Sigilo na folha de coleta
- Onde isto entra no Sinthoma
- Perguntas frequentes
- Quando usar frequência ou duração?
- Uma sessão sem dado vale zero?
- Como contar tentativa com ajuda?
- Como revisar um registro?
A coleta de dados em ABA começa antes da sessão: com a definição de qual comportamento será observado e de qual medida responde à pergunta da equipe. Depois vêm o registro durante a sessão, a conferência e a correção. Um número só tem valor quando se sabe o que foi contado, em quanto tempo e em quantas oportunidades.
Este guia é de documentação, não de conduta clínica. A escolha do que medir em cada caso é da analista ou do analista responsável, com base na avaliação, e a supervisão a acompanha. Aqui você encontra o que registrar, como contar, como conferir e o que costuma ser confundido. Todos os exemplos são sintéticos: o programa é fictício e a "criança A." não existe.
Definição operacional do comportamento
Uma definição operacional descreve o comportamento de modo que duas pessoas, observando a mesma cena, registrem a mesma coisa. Ela diz o que conta, o que não conta e onde o comportamento começa e termina. Sem isso, dois aplicadores produzem duas folhas diferentes para a mesma sessão. Para descrever o que acontece antes e depois do comportamento, veja o guia de análise funcional ABC.
Compare duas formulações. "Fica agitada" depende de quem observa. "Levanta da cadeira e sai da área de atividade com os dois pés fora do tapete" pode ser visto e contado. A segunda também diz o que fica de fora: levantar para pegar o material pedido não entra.
Vale registrar junto da definição três itens: um exemplo que conta, um exemplo que não conta e a data da última revisão do texto. Se a definição muda no meio do acompanhamento, os dados antes e depois da mudança não são comparáveis sem aviso.
Cooper, Heron e Heward, em Applied Behavior Analysis (3ª ed., 2020), são a referência de método para esses conceitos gerais de medida.
Tentativa versus evento
Registro por tentativa conta oportunidades planejadas, cada uma com começo e fim definidos pela instrução. Registro por evento conta ocorrências que acontecem quando acontecem, sem oportunidade marcada. A escolha muda o que o número significa.
Na tentativa, o denominador existe: 10 oportunidades apresentadas, 7 respostas independentes. Na ocorrência espontânea, como uma saída da área de atividade, não há oportunidade a contar, e o denominador passa a ser o tempo de observação.
A confusão mais comum é tentar tirar porcentagem de um evento sem oportunidade. "Saiu 6 vezes" não vira "60%" porque não se sabe 60% de quê. Para evento, a medida natural é a frequência ou a taxa, explicadas a seguir. Para tentativa planejada, o guia de tentativa discreta (DTT) mostra o registro tentativa a tentativa.
Frequência, taxa, duração, latência e intervalos
Cada medida responde a uma pergunta diferente, e cada uma engana de um jeito próprio. A tabela resume o que registrar e o cuidado necessário.
| Medida | O que responde | O que registrar | Quando engana |
|---|---|---|---|
| Frequência | Quantas vezes ocorreu | Contagem de ocorrências | Compara sessões de durações diferentes como se fossem iguais |
| Taxa | Quantas vezes por unidade de tempo | Contagem e tempo de observação | Tempo de observação não anotado ou estimado |
| Duração | Por quanto tempo durou | Início e fim de cada episódio | Episódios longos dominam o total e escondem a contagem |
| Latência | Quanto tempo até a resposta começar | Momento da instrução e momento do início da resposta | Instrução repetida sem anotar qual valeu |
| Intervalo | Em quantos intervalos houve ocorrência | Intervalos de tamanho fixo, marcados com ocorreu ou não ocorreu | Não é contagem: um intervalo com cinco ocorrências vale o mesmo que um com uma |
Um exemplo de taxa: na sessão 1, 6 ocorrências em 3 minutos dão 2 por minuto. Na sessão 2, 8 ocorrências em 5 minutos dão 1,6 por minuto. A frequência subiu de 6 para 8, mas a taxa caiu.
Um exemplo de duração: quatro episódios de 2, 5, 3 e 6 minutos somam 16 minutos, com média de 4 minutos por episódio. A folha deve dizer qual dos dois foi usado.
Um exemplo de latência: a instrução foi dada às 10h02min00s e a resposta começou às 10h02min07s. A latência é de 7 segundos. Se a instrução foi repetida, anote a hora da instrução considerada, porque a clínica precisa definir qual conta.
No registro por intervalo, a sessão é dividida em partes de mesma duração, por exemplo 10 intervalos de 30 segundos. Se o comportamento ocorreu em 4 deles, o registro diz que ocorreu em 4 de 10 intervalos, ou 40% dos intervalos. Isso não equivale a 40% do tempo nem a 4 ocorrências. Nos métodos por intervalo, a literatura distingue registrar se houve ocorrência em qualquer ponto do intervalo, durante todo ele ou apenas no instante final, e cada regra tende a superestimar ou subestimar. A folha precisa dizer qual regra foi usada.
A escolha entre essas medidas é uma decisão clínica de quem conduz o caso. Este guia não diz qual usar; diz que a escolha deve estar escrita e que a folha deve permitir reconstruir o cálculo.
Dado ausente versus zero
Uma sessão sem coleta fica em branco e não entra na média. Zero é um dado: significa que houve oportunidade ou observação e o comportamento não ocorreu. Campo vazio significa que ninguém mediu.
Veja o efeito em números sintéticos. A sessão 1 teve 7 respostas independentes em 10 oportunidades (70%). A sessão 2 não teve coleta, porque a equipe interrompeu o atendimento. A sessão 3 teve 3 respostas independentes em 5 oportunidades (60%).
Se a sessão 2 entrar como 0%, a média simples dos percentuais é (70 + 0 + 60) ÷ 3 = 43,3%. Com a sessão 2 em branco, a média das duas sessões medidas é (70 + 60) ÷ 2 = 65%. A diferença de mais de 20 pontos vem de uma célula vazia lida como zero.
Duas regras práticas ajudam. A primeira: quando não houve coleta, escreva o motivo ao lado (sessão interrompida, falta, instrumento indisponível). A segunda: registre a recusa e os sinais de desconforto como informação, não como lacuna. Se a criança A. pediu para parar, isso entra na folha com o horário. A pausa e o pedido de pausa fazem parte do acompanhamento, e o assentimento da criança é parte do que se documenta.
Há ainda uma escolha de agregação a declarar: média dos percentuais por sessão ou percentual do total de oportunidades. Com 7 de 10 e 3 de 5, o total é 10 de 15, ou 66,7%, enquanto a média dos percentuais dá 65%. Nenhum dos dois está errado; o erro é não dizer qual foi usado.
Registro de dicas junto da resposta
Cada resposta correta precisa vir com o nível de ajuda que a acompanhou. Sem isso, "acertou" pode significar que a criança respondeu sozinha ou que respondeu depois de uma ajuda física, e os dois dados não cabem na mesma coluna.
O mínimo é uma legenda definida pela clínica, aplicada igual por todas as pessoas da equipe. A folha pode ter, para cada tentativa, o resultado e a sigla da ajuda. O guia sobre hierarquia e legenda de dicas detalha como montar e versionar essa legenda.
Uma resposta com ajuda não é contada como independente. Ela pode ser registrada em categoria própria, porque mostra o que está acontecendo com o ensino, mas fica fora do numerador da independência. Misturar as duas infla o percentual e atrapalha a leitura do gráfico semanas depois.
Conferência e correção do registro
O registro é conferido por alguém diferente de quem preencheu, em intervalo definido pela clínica, e corrigido com rastro. Quem corrige é, em regra, quem fez o registro ou a supervisão, nunca uma pessoa que não esteve na sessão e reescreve de memória.
A correção boa preserva a versão anterior. Em papel, risca-se uma linha sobre o valor, de modo que ele continue legível, e escreve-se ao lado o valor novo, com data, iniciais de quem corrigiu e o motivo. Em planilha, a regra é a mesma: não sobrescrever a célula; acrescentar a linha de correção ou usar o histórico de versões. O valor antigo precisa continuar acessível para quem for auditar.
Três conferências simples pegam a maior parte dos problemas. O numerador é menor ou igual ao denominador? As categorias de resultado somam o total de tentativas? Há data, nome ou iniciais de quem coletou e identificação do alvo em toda folha? Uma folha que falha nelas volta para quem coletou antes de entrar no gráfico.
Do ponto de vista normativo, a Resolução CFP 001/2009, alterada pela 005/2010, é a referência do registro documental para psicólogas e psicólogos. Outras profissões da equipe têm normas próprias. A Resolução CFP 06/2019 orienta a elaboração de documentos escritos, como relatórios e laudos, e não substitui a anterior: a folha de coleta é registro de trabalho, e o relatório que sai para escola ou convênio é outra camada. O CFP também publicou a Nota Técnica CFP 23/2025, sobre o uso de ABA no cuidado a pessoas autistas, e a ABPMC publicou a Nota Técnica ABPMC 01/2025, sobre intervenções baseadas em ABA para TEA. Vale ler as duas na íntegra, com a supervisão.
Exemplo calculado, passo a passo
Programa fictício: a criança A. toca a figura nomeada em um campo de três figuras. A folha da sessão registrou 10 oportunidades. Em 7, a resposta foi independente. Em 2, houve ajuda gestual. Em 1, houve erro.
- Denominador: 10 oportunidades apresentadas.
- Numerador da independência: 7 respostas independentes.
- Cálculo: 7 ÷ 10 = 0,70, ou 70% de independência.
- Conferência: 7 + 2 + 1 = 10. As categorias fecham com o total.
Agora o caso extremo. Em outra sessão, a atividade foi suspensa antes de qualquer tentativa: 0 oportunidades. O cálculo seria 0 ÷ 0, que não tem resultado. O registro correto é "não calculável", e nunca 0%. Zero por cento diria que a criança teve chances e não respondeu de forma independente em nenhuma. Não é o que aconteceu.
Por último, um evento sem oportunidade planejada: 6 ocorrências em 3 minutos de observação. A taxa é 6 ÷ 3 = 2 por minuto. Não existe porcentagem, e o tempo de observação precisa estar na folha.
Para organizar o registro há a folha de registro, e para transformar as séries já conferidas em gráfico, a ferramenta de gráfico.
Sigilo na folha de coleta
A folha de coleta identifica a criança por iniciais ou por código do caso, nunca por nome completo. A Lei 13.709/2018 (LGPD) dá a dados de saúde a condição de dado pessoal sensível, no art. 11, e dedica o art. 14 aos dados de crianças e adolescentes, que devem ser usados em seu melhor interesse. A folha que circula entre aplicadoras, supervisão e coordenação carrega exatamente esse tipo de dado.
Na prática: use o código do caso, guarde a chave de correspondência em local separado e com acesso restrito, não fotografe a folha com o celular pessoal e não envie dados por aplicativo de conversa sem regra da clínica. A Lei 12.764/2012 reconhece a pessoa autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais.
Quanto ao conteúdo, registre o que foi observado e evite adjetivos sobre a criança. "Chorou por 4 minutos após a troca de atividade" informa; "estava difícil hoje" julga.
Onde isto entra no Sinthoma
A Edição ABA do Sinthoma, para clínicas com supervisão e equipe de aplicação, está em construção. O que já existe e o que vem a seguir estão na página da Edição ABA. Os demais textos da série estão no hub de guias de ABA.
Perguntas frequentes
Quando usar frequência ou duração?
Frequência responde quantas vezes o comportamento ocorreu, e duração responde por quanto tempo. A escolha depende da pergunta clínica e do comportamento, e é da analista responsável pelo caso, com a supervisão. O registro deve dizer qual medida foi usada, a definição operacional e o tempo de observação, para que outra pessoa refaça o cálculo.
Uma sessão sem dado vale zero?
Não. Zero é um dado: houve oportunidade ou observação e o comportamento não ocorreu. Sessão sem coleta fica em branco, com o motivo anotado, e não entra na média. Ler o vazio como zero puxa a média para baixo sem que nada tenha mudado no que a criança fez. Quando não houve oportunidade, o resultado é "não calculável".
Como contar tentativa com ajuda?
Resposta com ajuda não conta como independente. Registre o nível de ajuda segundo a legenda da clínica e mantenha a tentativa em categoria própria, fora do numerador da independência. Assim o percentual de respostas independentes continua legível e o registro mostra se a ajuda está diminuindo ao longo das sessões.
Como revisar um registro?
A revisão compara quem coletou com quem confere, em intervalo definido pela clínica. Verifique se o numerador cabe no denominador, se as categorias somam o total e se há data e responsável. Correções preservam o valor anterior, com data, iniciais e motivo, para que a versão original continue disponível a quem auditar.