Análise funcional (ABC): guia prático de registro
A análise funcional ABC é o instrumento de avaliação central da análise do comportamento. Saiba como montar e documentar corretamente no prontuário.
Neste artigo
- Os três elementos do ABC
- Como montar a análise funcional no prontuário
- O que o CFP exige e como a análise funcional encaixa
- A análise funcional ao longo do tratamento
- ABC e outros instrumentos de análise do comportamento
- Sigilo e dados de terceiros na análise funcional
- Perguntas frequentes
- A análise funcional ABC precisa estar no prontuário?
- Qual a diferença entre o ABC da análise do comportamento e o ABC de Ellis?
- Quantos comportamentos-alvo podem estar em uma análise funcional?
- O paciente pode ter acesso à análise funcional do próprio prontuário?
- Como registrar quando a análise funcional muda ao longo do tratamento?
A análise funcional ABC é o instrumento de avaliação central da análise do comportamento aplicada. Ela mapeia a relação entre um comportamento e o ambiente que o mantém: o que acontece antes (Antecedente), o que o paciente faz (Comportamento) e o que acontece depois (Consequência). No prontuário, esse registro é a base que fundamenta qualquer intervenção comportamental.
Sem a análise funcional documentada, o psicólogo que trabalha com análise do comportamento enfrenta o mesmo problema que qualquer outro clínico sem prontuário sistemático: não consegue reconstituir por que escolheu determinada estratégia de intervenção, nem demonstrar que o tratamento teve lógica.
Os três elementos do ABC
O modelo ABC foi desenvolvido a partir dos princípios do condicionamento operante descritos por B.F. Skinner e é detalhado na prática clínica por Cooper, Heron e Heward em "Applied Behavior Analysis" (3ª ed., 2020), a referência de maior peso na área.
A (Antecedente): tudo o que acontece imediatamente antes do comportamento. Pode ser um evento ambiental (som, presença de pessoa, horário), um estímulo interno (estado de humor, sensação física) ou um contexto mais amplo (estar em público, estar sozinho em casa). O antecedente não "causa" o comportamento no sentido determinista, mas estabelece a ocasião em que ele tem histórico de ser reforçado.
B (Behavior/Comportamento): o comportamento-alvo, descrito de forma objetiva e observável. "Ficou nervoso" não é comportamento-alvo. "Saiu da reunião antes de terminar, sem avisar", "deixou de abrir o aplicativo de finanças por 12 dias seguidos" ou "passou 4 horas por dia checando o celular" são. A objetividade do B é o que torna o registro clínico rastreável.
C (Consequência): o que acontece após o comportamento. A consequência é o que explica por que o comportamento se mantém: se for reforçadora (positiva ou negativa), o comportamento tende a se repetir nas mesmas condições.
Como montar a análise funcional no prontuário
Existem duas formas principais de uso clínico, que não são mutuamente exclusivas.
Análise funcional descritiva: você organiza as informações que o paciente relata em sessão no formato ABC. Esse é o ponto de partida para a maioria dos casos. Você ainda não manipulou variáveis, apenas descreveu a contingência como o paciente vivencia.
Exemplo de registro:
Situação: segunda-feira de manhã, antes de checar e-mails do trabalho.
A: pensamento "pode ter algo urgente que não consigo resolver".
B: checagem imediata do e-mail ao acordar, antes de qualquer outra atividade, incluindo o café.
C: redução temporária da ansiedade (reforço negativo). Às vezes confirmação de que não havia urgência (reforço positivo intermitente).
Análise funcional experimental: você manipula antecedentes ou consequências sistematicamente para testar hipóteses sobre o que mantém o comportamento. Esse nível de análise é menos comum no consultório convencional e mais presente em contextos de psicologia organizacional e ABA com crianças, mas quando realizado, precisa de registro ainda mais detalhado no prontuário: a hipótese testada, as condições criadas e o resultado observado.
O que o CFP exige e como a análise funcional encaixa
A Resolução CFP nº 01/2009 exige registro sistemático das sessões e das intervenções realizadas, além de documentação dos instrumentos de avaliação utilizados. A análise funcional é simultaneamente um instrumento de avaliação (você mapeia o que mantém o comportamento) e o fundamento lógico da intervenção (o que você vai modificar e por quê).
Registrar apenas "foi feita análise funcional" sem o conteúdo do ABC não cumpre a exigência de sistematicidade da resolução. O conteúdo da análise precisa aparecer, mesmo que em forma resumida.
A análise funcional ao longo do tratamento
Um erro comum é fazer a análise funcional na avaliação inicial e nunca mais atualizá-la. O ABC não é uma foto tirada no começo do processo: é um documento vivo. Comportamentos mudam, antecedentes mudam, o que reforça muda.
Uma forma prática de manter o registro atualizado:
- Ao final de cada fase do tratamento (ou a cada 8 a 12 sessões), revise o ABC original com o paciente.
- Registre o que mudou e o que permanece igual.
- Se um novo comportamento-alvo surgir, crie um ABC separado para ele.
Essa atualização periódica é o que permite usar a análise funcional como evidência de progresso clínico, não apenas como ponto de partida.
ABC e outros instrumentos de análise do comportamento
A análise funcional raramente aparece sozinha no prontuário. Os instrumentos que costumam acompanhá-la são:
Linha de base: registro de frequência, duração ou intensidade do comportamento-alvo antes de qualquer intervenção. Serve como referência para avaliar mudança ao longo do tratamento.
Registro de autorrelato: o paciente registra o próprio comportamento durante a semana, com data, hora, contexto e o que aconteceu antes e depois. Esse material entra no prontuário e enriquece o ABC.
Formulário de avaliação de reforçadores: identificação do que funciona como reforço para aquele paciente específico, dado que reforço não é universal.
Todos esses documentos ficam no prontuário vinculados à ficha do paciente, com data e sessão de referência.
Sigilo e dados de terceiros na análise funcional
O ABC frequentemente inclui informações sobre outras pessoas: o chefe que sobrecarrega, o parceiro que critica, os pais que pressionam. Esses dados chegam ao prontuário pela perspectiva do paciente, não como fato verificado sobre terceiros.
A LGPD, art. 11, permite o tratamento de dados sensíveis quando necessário para a prestação de serviços de saúde. Mesmo assim, a boa prática é registrar com a atribuição clara: "paciente relata que..." ou "na percepção do paciente...", o que distingue o dado clínico do dado factual e protege o profissional em caso de demanda ética.
Veja como outros formatos de registro se integram ao prontuário comportamental: DAP, SOAP e BIRP: o que são e como usar. Para conhecer os recursos de documentação clínica do Sinthoma: /precos.
Perguntas frequentes
A análise funcional ABC precisa estar no prontuário?
Sim. A Resolução CFP nº 01/2009 exige documentação dos instrumentos de avaliação utilizados e das intervenções realizadas. A análise funcional é o instrumento de avaliação central da análise do comportamento e fundamenta as intervenções subsequentes. Sem ela no prontuário, o raciocínio clínico fica sem registro.
Qual a diferença entre o ABC da análise do comportamento e o ABC de Ellis?
São modelos diferentes com a mesma sigla. Na análise do comportamento (Skinner/Cooper), A é o antecedente ambiental, B é o comportamento observável e C é a consequência que o mantém. No modelo de Ellis (Terapia Racional Emotiva Comportamental), A é o evento ativador, B são as crenças do indivíduo sobre o evento e C são as consequências emocionais e comportamentais. Em ambos os casos, o registro no prontuário segue a mesma lógica de sistematicidade exigida pelo CFP.
Quantos comportamentos-alvo podem estar em uma análise funcional?
Não há limite formal, mas mais de três ou quatro comportamentos-alvo simultâneos tornam o trabalho clínico difuso e o registro, difícil de manter. A prática mais comum é hierarquizar os comportamentos por urgência ou impacto e trabalhar um ou dois por vez, criando um ABC específico para cada.
O paciente pode ter acesso à análise funcional do próprio prontuário?
Pode. O paciente tem direito de acesso aos seus dados nos termos da LGPD, art. 18. Na análise do comportamento, inclusive, compartilhar o ABC com o paciente faz parte do processo: a psicologia comportamental contemporânea enfatiza a transparência sobre o modelo de trabalho como elemento terapêutico.
Como registrar quando a análise funcional muda ao longo do tratamento?
Crie versões datadas. Mantenha a análise funcional inicial no prontuário e adicione versões revisadas com data e uma breve nota explicando o que mudou e por quê. Essa sequência de versões documenta a evolução do caso melhor do que qualquer nota de evolução isolada.
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