Ficha de encaminhamento psicológico: modelo e quando usar
Ficha de encaminhamento não é relatório nem atestado. Veja quando usar, o que incluir e como registrar encaminhamentos enviados e recebidos no prontuário.
Neste artigo
- Quando você precisa de uma ficha de encaminhamento
- O encaminhamento exige autorização do paciente
- Estrutura completa: o que incluir na ficha
- Ficha de encaminhamento é a mesma coisa que relatório psicológico?
- Recebendo um encaminhamento de outro profissional
- Erros comuns na ficha de encaminhamento
- Onde guardar isso no prontuário
- Perguntas frequentes
- A ficha de encaminhamento precisa ter o CRP do profissional que vai receber?
- Posso encaminhar sem dizer o motivo específico ao paciente?
- O paciente pode recusar o encaminhamento?
- Encaminhamento verbal, combinado só por telefone entre profissionais, é válido?
- Por quanto tempo preciso guardar a ficha de encaminhamento?
Ficha de encaminhamento é o documento curto que formaliza a indicação de um paciente para outro profissional, seja porque você está enviando (para um psiquiatra, um neuropsicólogo, um colega de outra especialidade) ou porque está recebendo (de um pediatra, um clínico geral, a escola). Não é atestado, não é laudo, não é o prontuário inteiro. É um recorte objetivo com um único propósito: dar ao profissional seguinte o essencial para continuar o cuidado, sem entregar mais do que ele precisa.
Muita gente improvisa esse documento num e-mail solto ou numa mensagem de WhatsApp, sem os elementos mínimos que garantem sigilo, rastreabilidade e clareza sobre o que está sendo pedido. Este texto detalha quando usar a ficha, o que incluir e como registrá-la no prontuário, nos dois sentidos: enviando e recebendo.
Quando você precisa de uma ficha de encaminhamento
Você precisa dela sempre que o cuidado do paciente passa, ainda que temporariamente, para outro profissional, e esse profissional precisa de contexto mínimo para não recomeçar do zero.
As situações mais comuns:
- Avaliação psiquiátrica. Sintomas que sugerem necessidade de investigação medicamentosa ou comorbidade clínica que está fora do seu escopo.
- Neuropsicologia. A queixa pede avaliação formal com instrumentos específicos, e você não é o profissional que vai conduzir esse processo.
- Outro psicólogo. Mudança de cidade do paciente, fim de vaga na sua agenda, ou uma especialidade que foge do seu foco de trabalho, como terapia de casal quando sua prática é individual.
- Recebimento de um encaminhamento. Um pediatra, um clínico geral ou a escola pedem acompanhamento psicológico e chegam até você com informação prévia sobre o caso.
Um relatório psicológico completo, regulado pela Resolução CFP nº 06/2019, descreve todo o processo terapêutico com profundidade. A ficha de encaminhamento é mais enxuta: existe para viabilizar a passagem de cuidado, não para documentar a trajetória inteira. Quando o profissional que recebe pede mais detalhe clínico do que cabe numa página, o documento correto passa a ser o relatório.
O encaminhamento exige autorização do paciente
Sim, sempre. Compartilhar qualquer informação clínica com outro profissional, mesmo que seja para o bem do próprio paciente, depende da autorização dele. O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005), art. 9º, protege o sigilo das informações obtidas no exercício profissional, e a LGPD (Lei nº 13.709/2018), art. 11, trata dado de saúde mental como dado pessoal sensível, com tratamento restrito ao necessário para a tutela da saúde.
Na prática, isso significa duas coisas. Primeiro: você conversa com o paciente antes de encaminhar, explicando o motivo e o que pretende compartilhar. Segundo: você registra esse consentimento no prontuário, com data, mesmo que a autorização tenha sido verbal. Uma ficha de encaminhamento assinada, ou com essa autorização documentada, é o instrumento correto para colocar informação clínica em movimento sem violar o sigilo.
Estrutura completa: o que incluir na ficha
Uma ficha de encaminhamento funcional tem sete campos e cabe numa página.
- Identificação do paciente. Nome, idade e data do encaminhamento.
- Identificação de quem encaminha. Nome completo, CRP e um contato para eventual esclarecimento.
- Identificação de quem recebe. Nome do profissional ou serviço, quando já definido. Se o paciente ainda vai escolher, registre "a definir pelo paciente".
- Motivo do encaminhamento, em duas ou três frases objetivas. O que motiva a indicação, sem despejar a história clínica inteira.
- Pergunta ou expectativa específica. O que se espera do profissional seguinte: avaliação, investigação de medicação, segunda opinião, continuidade do acompanhamento.
- Tempo e frequência do acompanhamento até o momento, para dar contexto mínimo de continuidade.
- Data e assinatura.
Exemplo de consultório: "Encaminho R., 29 anos, em acompanhamento comigo desde março de 2026, sessões semanais, para avaliação psiquiátrica. Motivo: sintomas de insônia e irritabilidade persistentes há 8 semanas, sem resposta a intervenções comportamentais isoladas. Não há histórico de uso de medicação psiquiátrica prévia. R. está de acordo com o encaminhamento e ciente de que as informações aqui descritas foram compartilhadas com sua autorização."
Ficha de encaminhamento é a mesma coisa que relatório psicológico?
Não. São documentos com propósitos diferentes, e confundir os dois é um erro comum.
| Aspecto | Ficha de encaminhamento | Relatório psicológico |
|---|---|---|
| Extensão | Uma página, objetiva | Pode ter várias páginas |
| Base normativa | Sem regulação específica; segue os princípios gerais de sigilo e identificação profissional | Resolução CFP nº 06/2019 |
| Propósito | Passar o cuidado adiante com contexto mínimo | Descrever o processo terapêutico com profundidade |
| Quando usar | Encaminhamento simples, rede de cuidado | Pedido formal de instituição ou escola, quando mais detalhe é necessário |
Quando o destinatário pede mais do que a ficha permite, por exemplo uma escola pedindo o detalhamento da evolução do processo, o documento certo é o relatório, seguindo a estrutura da Resolução CFP nº 06/2019: motivo, procedimentos utilizados, desenvolvimento do processo e impressões técnicas. Para conhecer essa estrutura completa: laudo, parecer, relatório e atestado psicológico: as diferenças.
Recebendo um encaminhamento de outro profissional
Um encaminhamento recebido não obriga você a aceitar o caso nem a seguir a indicação do profissional anterior sem critério clínico próprio. Ele é um ponto de partida, não uma instrução vinculante.
Ao receber, vale checar três coisas: se o paciente sabe e concorda com o que foi compartilhado sobre ele, se a informação recebida tem relevância direta para o seu trabalho ou se é apenas contexto administrativo, e se falta algo essencial que você precisa perguntar diretamente ao paciente em vez de assumir a partir do texto do colega. Guarde a ficha recebida no prontuário, como parte do histórico do caso, junto com a data em que chegou até você.
Erros comuns na ficha de encaminhamento
- Encaminhar sem conversar antes com o paciente, assumindo que o consentimento está implícito porque "é para o bem dele".
- Escrever a ficha como resumo completo do caso, incluindo informação sem relação direta com o motivo do encaminhamento.
- Não guardar cópia do que foi enviado ou recebido no prontuário do paciente.
- Omitir CRP e contato de quem encaminha, dificultando que o profissional seguinte esclareça dúvidas.
- Usar WhatsApp pessoal ou e-mail sem controle de acesso para transmitir dado sensível de saúde entre profissionais.
Onde guardar isso no prontuário
A ficha de encaminhamento, enviada ou recebida, entra no mesmo registro do paciente, com a mesma proteção do resto do prontuário. No Sinthoma, cada documento gerado fica anexado à ficha do paciente com data e histórico, então você não perde o rastro de quem encaminhou o quê e quando. Para quem prefere montar a ficha em papel ou editor de texto antes de estruturar no sistema, também há modelos de documentos gratuitos e editáveis, incluindo anamnese, contrato terapêutico e plano terapêutico.
Perguntas frequentes
A ficha de encaminhamento precisa ter o CRP do profissional que vai receber?
Só quando já se sabe quem vai receber. Se o paciente ainda vai escolher o profissional, deixe o campo como "a definir pelo paciente" e detalhe apenas a especialidade indicada. O CRP obrigatório na ficha é o de quem encaminha, para permitir que o destinatário confirme a origem do documento.
Posso encaminhar sem dizer o motivo específico ao paciente?
Não é recomendado. O paciente tem direito de saber o que está sendo compartilhado sobre ele e por quê, e a autonomia do paciente é um princípio central do Código de Ética Profissional do Psicólogo. Uma exceção clínica pontual, com justificativa técnica clara, deve ficar registrada no prontuário como decisão consciente, não como omissão de rotina.
O paciente pode recusar o encaminhamento?
Pode. O encaminhamento é uma indicação, não uma obrigação. Se o paciente recusar, registre a recusa no prontuário e continue o acompanhamento conforme o que for clinicamente adequado dentro do seu próprio escopo de atuação.
Encaminhamento verbal, combinado só por telefone entre profissionais, é válido?
Acontece na prática, principalmente entre profissionais que já trabalham juntos com frequência. Mas o registro escrito no prontuário é o que sustenta a decisão depois, inclusive numa eventual dúvida ética. Um encaminhamento verbal sem nota escrita vira palavra de um contra a lembrança do outro meses depois.
Por quanto tempo preciso guardar a ficha de encaminhamento?
O mesmo prazo do restante do prontuário: no mínimo 5 anos a partir do último registro, conforme a Resolução CFP nº 01/2009. A ficha, enviada ou recebida, é parte do registro documental do caso e segue a mesma regra de guarda.
Continue lendo: Prontuário ou registro documental: o que o CFP realmente exige e sigilo no prontuário psicológico: o que a LGPD e o CFP exigem.
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