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IA na clínica

ChatGPT no consultório: os riscos éticos que a Cartilha do CFP aponta

A Cartilha de IA do CFP (dez/2025) identifica riscos concretos no uso de ferramentas como ChatGPT na clínica psicológica. Veja o que o Conselho aponta e o que isso muda na sua prática.

Equipe editorial do Sinthoma

6 min de leitura

IA na clínica
sinthoma.com.br
Neste artigo

Usar o ChatGPT para apoiar o trabalho clínico não é proibido pelo CFP. Mas a Cartilha de Inteligência Artificial do CFP, publicada em dezembro de 2025, identifica riscos específicos que qualquer psicólogo precisa conhecer antes de usar qualquer ferramenta de IA no consultório. O principal deles não é técnico: é a tendência de delegar ao algoritmo decisões que são, por definição, responsabilidade do profissional.

A cartilha não é uma resolução. Não tem força normativa igual a uma Resolução CFP. Mas é o posicionamento oficial do Conselho sobre IA na psicologia, e pode ser usada como referência em processos éticos sobre o tema.

O risco central: responsabilidade que não se delega

O ponto mais repetido na Cartilha de IA do CFP é que a responsabilidade profissional não pode ser transferida para uma ferramenta de IA. Isso vale independentemente de qual ferramenta seja usada: ChatGPT, Gemini, ou qualquer sistema de IA clínica.

Na prática, isso significa que "a IA sugeriu" não é justificativa ética para uma decisão clínica. Se você usou um texto gerado por IA numa evolução de sessão sem revisar criticamente, a responsabilidade pelo conteúdo é sua. Se uma sugestão de intervenção gerada por IA não foi adequada e causou dano, não existe "mas foi a IA que disse". O Código de Ética Profissional do Psicólogo (Resolução CFP nº 010/2005) estabelece que o psicólogo é responsável pelos atos profissionais que pratica. A ferramenta não é sujeito ético. Você é.

O risco de dados: o que acontece com o conteúdo que você digita

Quando você descreve o caso de um paciente para o ChatGPT — mesmo sem nome — e envia por uma conta gratuita ou padrão da OpenAI, está enviando dados de saúde para servidores de uma empresa norte-americana. A LGPD, art. 11, classifica dados referentes à saúde como dados sensíveis, com requisitos de proteção reforçados. A transferência internacional desses dados exige garantias específicas, que os termos padrão da OpenAI não oferecem para usuários individuais brasileiros.

A Cartilha do CFP aponta esse ponto diretamente: o profissional precisa verificar onde os dados inseridos são processados e armazenados, por quanto tempo e quais são as garantias de não uso para treinamento de modelos. A versão gratuita do ChatGPT usa as conversas para treinamento por padrão, a menos que o usuário desative nas configurações. A versão paga (ChatGPT Team ou Enterprise) tem termos mais restritivos, mas ainda exige que o profissional assine um contrato de processamento de dados adequado, o que não é automático.

A consequência prática: usar o ChatGPT gratuito com dados de pacientes pode configurar violação da LGPD e infração ética simultâneas.

O risco de viés nos resultados

Modelos de linguagem como o ChatGPT são treinados em grandes volumes de texto da internet. Esse texto carrega vieses culturais, de gênero, socioeconômicos e raciais. Quando o modelo sugere uma intervenção ou produz um texto sobre um paciente, ele reflete esses vieses de forma que nem sempre é visível.

A Cartilha do CFP cita o risco de viés algorítmico como problema específico para a psicologia: a IA pode produzir respostas que parecem neutras mas que reproduzem estereótipos sobre grupos étnicos, de gênero ou de condição socioeconômica. Para o psicólogo que usa IA sem revisar criticamente o output, esse viés entra na documentação clínica sem filtro.

Não é que o ChatGPT seja sempre tendencioso. É que você não sabe quando ele é, e o modelo não avisa.

O risco de opacidade: o que a IA não explica

Modelos de linguagem não explicam o raciocínio que levou a uma saída específica. Se você pede ao ChatGPT uma sugestão de intervenção e ele a dá, não há acesso ao porquê daquela sugestão naquele momento. Isso é diferente de consultar uma referência bibliográfica, onde você pode verificar o argumento original.

A Cartilha do CFP chama essa característica de opacidade e aponta que ela é incompatível com a exigência de fundamentação das decisões clínicas. Quando o prontuário registra uma intervenção, ela precisa ter base técnica verificável. "A IA sugeriu" não é base técnica verificável.

Como usar IA no consultório dentro do que o CFP orienta

A Cartilha do CFP não proíbe o uso de IA. O que ela orienta é uso com supervisão crítica, sem delegação de responsabilidade, com atenção aos dados que são compartilhados e com consentimento informado do paciente.

Um uso que respeita essas orientações: ferramentas de IA integradas a sistemas de prontuário que processam dados localmente ou com contratos de processamento adequados à LGPD, onde o profissional revisa e assina cada output antes que ele se torne parte do prontuário. O modelo gera um rascunho; o psicólogo decide o que fica.

Um uso que não respeita: descrever sessões detalhadas no ChatGPT gratuito para "ajudar a pensar o caso", mesmo sem nome, e usar o resultado sem revisão crítica no prontuário.

Para o contexto completo da Cartilha do CFP, incluindo o que ela diz sobre consentimento e responsabilidade técnica: Cartilha de IA do CFP (dez/2025) explicada ponto a ponto. Para conhecer como prontuários com IA integrada tratam esses requisitos: /precos.

Perguntas frequentes

O CFP proibiu o uso de ChatGPT na psicologia?

Não. A Cartilha de IA do CFP (dez/2025) não proíbe o uso de ferramentas de IA. O que ela faz é mapear riscos e orientar princípios de uso responsável: supervisão crítica do output, não delegação de responsabilidade clínica e cuidado com os dados inseridos. A proibição só existiria se uma Resolução CFP específica fosse publicada com esse conteúdo, o que não aconteceu até a data deste texto.

Posso usar o ChatGPT para escrever evoluções de sessão?

Pode usar como rascunho, desde que revise criticamente o que a ferramenta produziu antes de inserir no prontuário. O que não pode é colocar um texto gerado automaticamente no prontuário sem leitura e ajuste do profissional. A evolução de sessão é um documento clínico assinado pelo psicólogo: o conteúdo é de sua responsabilidade, independentemente de qual ferramenta ajudou na redação.

O conteúdo que insiro no ChatGPT é usado para treinamento?

Na versão gratuita, sim por padrão. A OpenAI usa as conversas para melhorar os modelos, a menos que o usuário desative essa opção nas configurações de privacidade da conta. Nas versões pagas para equipes e empresas (Team e Enterprise), os termos são diferentes, mas você precisa verificar o contrato específico. Antes de usar qualquer versão com dados de pacientes, verifique e documente quais são as condições de uso dos dados.

Preciso contar ao paciente que uso IA no meu trabalho?

Sim, se você usa IA de forma que afete o atendimento dele. A Cartilha do CFP orienta que o paciente deve ter conhecimento sobre o uso de IA e suas implicações para poder dar consentimento informado. Isso não significa que você precisa explicar cada ferramenta de produtividade que usa; significa que o uso de IA que processa dados do paciente ou produz conteúdo que vai para o prontuário precisa estar coberto no TCLE.

IA clínica integrada ao prontuário é diferente do ChatGPT?

É, quando o produto foi desenvolvido com esses requisitos: contratos de processamento de dados adequados à LGPD, sem uso dos dados para treinamento de terceiros e com o profissional revisando e assinando cada output antes que ele entre no prontuário. O ChatGPT por conta própria, sem configuração específica, não veio com esses requisitos embutidos. A diferença não é técnica — é contratual e de design do produto.

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Tags:ChatGPTIA na clínicaCartilha CFPriscos éticosLGPDdados sensíveisinteligência artificialpsicologia

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